Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018

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Criticas

Publicada em 28/02/18 às 15:42h - 133 visualizações
Era só uma menina e eu querendo que ela faça... Paralamas do sucesso.
Era apenas uma menina

Domênica Rodrigues


 (Foto: Fernando Sato )

Amanheci com um sentimento reativo de AMOR ainda maior que o me moveu a dizer para todas as pessoas que eu encontrava pelas ruas depois do fatídico episodio de Beatriz, 16 anos Rio de Janeiro, 16; Enquanto escrevia, parei um segundo e contabilizei as letras e números da frase acima e percebi que ela contem, o seguinte o número: 7+6+12+2=25+05(mês) = 30, esse é o numero assombroso que me traz aqui. No entanto quem me aproximou das mal traçadas linhas escritas hoje foi outra menina. Era só uma menina da zona da mata sul em Pernambuco; e sem especificar todos os casos, e tantas violências que sofri e das tantas histórias de meninas das 22 cidades que compõem a minha região matriz que foi e vive sendo estuprada, não só pelos homens e mulheres de lá, mas pelo sistema opressor que finge proteger e além de afastar, criminaliza. CADA UMA DELAS E CADA UM DELES. 


Foi assim com a Miss em Nabuco, foi assim com a menina que namorava em Água Preta, foi assim com a professora em Xéxeu, foi assim com a tia da escolinha do arruado em Palmares, foi assim com a menina que pegava carona para ir para a Faculdade em Escada, foi assim com a que vinha da escola em Quipápá , foi assim com a mulher que lavava roupa no rio em Serinhaém, foi assim com o menino que jogava bola em Rio Formoso, Foi assim com a moça que tomava sol em Tamandaré, foi assim com as amigas que dormiam na praia e perderam a hora em São José, foi assim com a filha de um amigo... Foi assim com a menina que era atriz de Ribeirão, foi assim com a dançarina de São Benedito do Sul, foi assim com a cantora de Gameleira, foi assim com a vendedora de Belém de Maria, foi assim com a atleta em Barreiros, foi assim com a obreira no caminho da igreja em Maraial, foi assim com um ex- aluno gay em São Bento do Una, foi assim comigo quando voltava da sulanca, foi assim com uma menina em Catende. 


Ontem depois de ver estampado nos jornais as cenas de desvio de dinheiro de Catende falei sem desejar, "só falta agora aparecer uma história de violência sexual, com tanto dinheiro aparecendo". Não deu outra... 


O sistema nos estupra por todos os lados e forma às vezes digo que há uma simbiologia(nem sei se existe) nas assombrosas notícias de violência em relação à pessoa que o que sinto é vontade de desejar o Bem, por que foi para propagar isso que fui gerada e educada pelas irmãs franciscanas no C.N.S.L-Palmares e por minha mãe que também foi violentada em sua viuvez, quando as pessoas desacreditavam no potencial profissional de uma mulher pobre, viúva, jovem com 3 filhos e um cachorro em 1980. Bom, porque esse MIMIMI todo. Para dizer: "que não é mimimi". 


Seguindo para o jornal e para o caso que me tocou ainda mais profundo, que o de "Beatriz, 16,RJ,16", esse me toca pela proximidade genealógica. Calma, não, ela não está na minha árvore, mas, esta na linha do povo que ancestralmente me chamou para a vida e pode ser da árvore de qualquer amiga minha que vive por lá. 


Estava lá mais um corpo violado e dessa e mais uma vez: "Era só uma menina". 


É duro sentir consciência das conseqüências desse meu longo silêncio e me perceber dentro dele como uma precursora de violências. Denunciar-se e denunciar essa opressão não é fácil para vítimas e vitimados, estamos vivendo sim um momento universal de crises morais e éticas que se sobrepõem ao que desejamos e por vezes no que acreditamos, mas é hora de não calar e de dizer para o MUNDO que a nossa vinda aqui não é de brincadeira. 


Vamos lá, algumas vezes precisamos ter coragem para relatar alguns casos... Falei da minha mãe lá em cima, vocês devem ter visto, pois bem, cá estamos. 


Vou contar historinha:"era uma vez, duas meninas que viviam numa família envolvida com muita violência urbana e rural. Um dia, a mãe de uma das meninas resolveu pedir para ela levar docinhos na casa do vovô e disse: tenha cuidado, tem muita gente olhando para você por aí, com medo de chegar lá a menina chamou a colega de 13 anos e as duas foram até a casa do vovô. Chegando lá, o bom senhor além de agradecer a visita lhe ofereceu um dinheirinho para que ela levasse para comprar coisas com a amiga. Elas aceitaram, porque ele jamais ia fazer mal para elas e tudo que ele fazia era com muito carinho. E elas voltaram para casa, a mãe ao saber do dinheiro ficou feliz com o presente e mais uma vez perguntou se ela queria ir lá, com medo do caminho e dos olhares das pessoas, lá vai ela chamar a amiga. E foi assim... Com ela e com a amiga. Até que um dia ela sentiu as pessoas olhando para ela de forma diferente porque agora o vô chamou mais dois colegas para comer os docinhos que elas levavam para ele. Após, alguns meses sua mãe e as pessoas da rua por onde ela passava percebeu que os doces que ela levava para a casa do vovô tornaram a barriga dela inchada, por vários dias até que alguém teve coragem e perguntou para o vô, que parou de pedir doce para sua netinha, que na seqüência fez a sua mãe parar de ordenar que ela levasse." 


Porque contei isso tudo? Para entendermos que quando a gente abre o jornal todos os dias e vê manchetes falando de forma misógina e patriarcal sobre as violações nos nossos CORPOS o que está em xeque é uma política jornalística, corrupta, alienada, desrespeitosa e mal informada, além de filha da puta que nos culpabiliza por tudo e diz indireta e por vezes diretamente que nosso discurso é de mulher mal comida que gosta de falar mal duzomis, quero dizer para vocês, Zomis: Que o MIMIMI é todo vosso e meninas que se apaixonam pelo discurso machista que as cerca o utiliza como seu: O mimimi é de vocês também, mas, a gente pode se ajudar. E Que essa mãe por mais violadora que seja, estava num contexto de abandono e que esses 3 ZOMIS, são sim conscientes do ato e certos de que a cultura do ESTUPRO, sim, falo cultura porque essa se alimenta daquilo que reproduzimos de forma geracional, e nesse caso estamos reproduzindo cotidianamente esse ritual macabro. 


Culpar a mãe por isso é fácil, dizer que ela mandava elas irem e que elas faziam porque queriam também, mas, e assumir seu silêncio, e ser conivente com essas práticas, e assumir que se fosse na sua casa você também se calaria porque não queria expor o nome de sua família no grupo da igreja, na padaria, no salão? Temos que começar a rever nosso conceito de silenciamento para não permitir que soframos com as incoerências que o machismo prega e impreguina em nós. Que a coragem de se expor nos encha todos os dias. 


Por: Domênica Rodrigues 


Fonte: http://portalpe10.com.br/noticias/11268/em-xexeu-menina-de-12-anos-e-abusada-por-tres-homens-um-deles-eavo-da-garota




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